Você pode estar dificultando seus relacionamentos

Por Valentina Seabra

Nos relacionamentos profundos e duradouros, são muitos os fatores que determinam se “vai dar certo” ou se a relação está fadada ao fracasso. Para que um relacionamento sólido se estabeleça, é preciso que ele tenha boas bases e pilares fortes, onde possamos nos apoiar quando surgirem problemas baseados nas diferenças. Todos nós somos diferentes e, por isso, a forma de resolvê-las será o fator fundamental para diferenciar um relacionamento de sucesso de outro que não deu certo. ⠀⠀
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O problema não está nos conflitos, pois eles são comuns, inevitáveis, e muitas vezes é uma grande oportunidade para enxergarmos o que está “debaixo do tapete” e resolver questões mal trabalhadas, dando mais profundidade na relação. A questão está nos mecanismos que são ativados quando os problemas surgem. ⠀⠀
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Por isso que casais recém separados, por exemplo, costumam ficar presos à emoções negativas, que levam a um ciclo autodestrutivo; consistente no emprego de mecanismos comunicacionais que ferem e que são ineficazes para solucionar ou aceitar as situações vividas.⠀⠀⠀

Segundo John Gottman, psicólogo famoso especialista em relacionamentos, existem quatro comportamentos padrões que podem destruir qualquer relacionamento. Esses padrões também dialogam bastante com a metodologia “comunicação não – violenta”, criada por Marshal Goldenberg.

Gottman chama de quatro cavaleiros do apocalipse:

Crítica: Algumas formas de críticas, ainda como julgamento, tem o objetivo de construir. Mas, neste caso, crítica refere-se a fazer julgamentos ou declarações negativas sobre seu parceiro em termos extremos e absolutos. Um sinal de que você pode estar agindo desta forma prejudicial é usar palavras como: “nunca” e sempre “, por exemplo.” Você nunca faz o que eu peço! ” ou ” Você é sempre tão devagar!”. Repare que a crítica em si não é necessariamente uma receita para o fracasso – a questão da crítica é quando ela é frequente excessiva ou extrema, o que pode, com o tempo, levar a lugares mais destrutivos. Até porque quando a pessoa é muito critica, muitas vezes está fazendo um espelhamento do outro e projetando suas próprias questões na pessoa.

Alternativa construtiva: não há nada de errado em expressar preocupações e reclamações em um relacionamento, mas o caminho mais construtivo de fazer é se concentrar nos seus próprios sentimentos (e em como o comportamento do seu parceiro o afeta). Fazer declarações de “eu”, por exemplo. “Sinto-me sozinho quando você não me ajuda nas tarefas que combinamos de fazer”. E mencionando comportamentos negativos específicos em vez de fazer ataques globais a toda a sua personalidade. “Sinto-me negligenciado quando você não me escuta ou ignora meus pedidos” em vez de “Você é tão insensível!”. Consulte a prática de escuta ativa e comunicação não-violenta para obter mais sugestões nesse sentido.

Desprezo: É uma forma de crítica mais destrutiva que envolve tratar a pessoa com desrespeito, nojo ou ridículo. Envolve sarcasmo, revirar os olhos, zombar ou xingar. Normalmente são comportamentos passivo- agressivos. Pode aumentar com o tempo quando uma pessoa se concentra nos pontos que não gosta na pessoa e fortalece e constrói esses conceitos em sua mente.

Alternativa construtiva: em vez de acompanhar todas as falhas da pessoa, considere suas qualidades positivas e as coisas que você admira nela (afinal todo ser humano é complexo repleto de defeitos e qualidades). Um bom exercício é escrever uma lista dessas qualidades e relembrar quando você precisar de um lembrete.

Defensividade: Surge quando as pessoas se sentem atacadas ou criticadas. Envolve inventar desculpas para evitar assumir seus erros ou até mesmo culpar a outra pessoa. Se você se ouvir dizendo “não fiz nada errado” ou culpar seu parceiro por outra coisa depois que ele tiver feito uma queixa contra você, pergunte-se se esse é realmente o caso. Mesmo que a pessoa tenha cometido alguns erros, isso não o isenta da responsabilidade por coisas que você também poderia ter feito de maneira diferente. O problema da atitude defensiva é que ele comunica a pessoa que você realmente não está ouvindo ou levando a sério as necessidades e preocupações dela. E, ao introduzir novas queixas, também pode agravar o conflito, fazendo com que pessoa se sinta atacada e defensiva.

Alternativa construtiva: reserve um tempo para ouvir seu parceiro e assumir a responsabilidade genuinamente quando apropriado. Um pedido de desculpas sincero pode ajudar bastante.

“Stonewalling” – muro de pedra: significa construir um muro de pedra (metafórico) entre você e a pessoa, afastando-se, desligando-se e distanciando-se física e emocionalmente dela. Um exemplo de impedimento é o “tratamento silencioso” ou sair abruptamente da conversa ou da questão sem retorno. O stonewalling às vezes pode resultar quando os três primeiros “cavaleiros” se acumulam e se tornam esmagadores. Esse tipo de bloqueio é especialmente destrutivo para os relacionamentos mais profundos porque pode fazer com que a pessoa se sinta abandonada e rejeitada.

Alternativa construtiva: se você precisar de um tempo para respirar fundo e reunir seus pensamentos, explique a pessoa e retome a conversa quando estiver pronto. Dessa forma, seu parceiro entenderá que você está cuidando de si mesmo d não tentando rejeitá-la.

Se relacionar é uma arte que exige sensibilidade, escuta ativa, troca, responsabilidade e humildade para que tenhamos atenção com nossos padrões e mecanismos de defesa, para que não sejam projetados no outro de forma consciente ou inconsciente. Uma boa ajuda além da busca de profissionais como terapeutas, e psicólogos, são cursos de autoconhecimento e comunicação construtiva.